A sucessão rural está em curso na Fruticultura Hoçoya, em Mogi das Cruzes (SP), onde Ercílio Massahito Hoçoya administra o negócio da família ao lado do pai, Takeo. A trajetória reúne cultivo de frutas, decisões de gestão e a preparação de uma nova geração.
A história começou com os avós de Ercílio, imigrantes japoneses que deixaram o bairro dos Pimentas, em Guarulhos, e se estabeleceram em uma propriedade rural em Biritiba Mirim. A família passou a produzir caqui e construiu, ao longo das gerações, uma atividade reconhecida pela qualidade da fruta.
Em reportagem publicada em 24 de outubro de 2026, Ercílio, de 44 anos, contou como assumiu responsabilidades na propriedade de Cocuera, em Mogi das Cruzes, com o apoio de Takeo, de 79. O produtor também falou sobre as mudanças feitas na operação e sobre a decisão de deixar o próprio caminho de sucessão em aberto para as duas filhas.

O tema ganha relevo diante do envelhecimento dos produtores rurais: segundo o Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 12,7% tinham menos de 35 anos, enquanto mais da metade tinha mais de 55. O caso da família aborda a continuidade do negócio, a autonomia de quem assume e a adaptação da produção às condições da propriedade.
Da mudança de propriedade à construção de uma produção reconhecida
Em Guarulhos, os avós de Ercílio criavam aves e cultivavam frutas em um terreno pedregoso, com muitos morros e pouca água. A avó encontrou em um jornal o anúncio de uma propriedade à venda em Biritiba Mirim e decidiu comprá-la; o local já tinha um pomar de caqui, e os antigos donos pediram apenas para acompanhar a primeira colheita.
Sem experiência no cultivo da fruta, a família procurou orientação na cooperativa Sul Brasil, da qual era associada. Um agrônomo recomendou o uso de calda bordalesa para proteger as plantas de uma doença que derrubava as folhas e fazia o caqui amadurecer cedo, por volta de abril.
Com as árvores saudáveis, os frutos passaram a amadurecer no pé e a ser colhidos em maio e junho, no fim da safra. O resultado atraiu caravanas de produtores de várias partes do país, e a família recebeu por 30 anos consecutivos o título de melhor produtora de caqui da cooperativa, que premiava a qualidade, não apenas o volume; a sequência terminou quando a Sul Brasil faliu.
Na década de 1960, os Hoçoya também criaram uma logomarca para a fruta, numa época em que isso era incomum no setor de hortifrúti. A embalagem priorizava a quantidade de caquis, com apenas uma camada fina de capim para protegê-los, e o nome inicial, Fruticultura Presidente, foi sugerido por Takeo; o slogan atual, criado por Ercílio, é “é muito mais sabor”.
Autonomia e aprendizado na preparação de Ercílio para assumir o negócio
Antes de voltar ao negócio familiar, Ercílio trabalhou no Japão por dois anos e meio e estudou Tecnologia em Agronegócio na Faculdade de Tecnologia de Mogi das Cruzes (Fatec). A decisão de assumir responsabilidades ganhou força quando ele leu uma entrevista em que Takeo dizia não saber se algum de seus quatro filhos assumiria a propriedade.
Ercílio acreditava que nenhum dos irmãos tomaria a frente do negócio e decidiu que não queria deixar a história da família se perder. Ao retornar, passou a cuidar de uma área menor enquanto cursava a faculdade, escolha que, segundo ele, permitiria cometer erros sem comprometer a produção principal.
Takeo ensinava, mas não acompanhava cada decisão de perto. Quando Ercílio errava, o pai explicava depois o que poderia ter sido feito de outra maneira; o produtor resume essa autonomia dizendo: “Meu pai me permitiu errar”.
Adaptações na propriedade e a sucessão das próximas gerações
Para reduzir o período sem faturamento entre as safras anuais de caqui, Takeo diversificou os cultivos. Tentou nêspera, abacate, murcote, ponkan e maracujá-doce, mas retirou alguns pomares quando as plantas começaram a produzir e os preços já haviam caído; a pitaya veio de mudas recebidas de um vizinho indonésio, e a lichia foi introduzida para ocupar janeiro e fevereiro.
Depois que uma doença sem tratamento específico eliminou a atemoia, a família plantou goiaba. A propriedade passou a colher algum tipo de fruta em dez meses do ano, sem safra em novembro e dezembro, enquanto Ercílio ajusta o plantio: reduz a nêspera, amplia o caqui e a goiaba e considera culturas que demandem menos mão de obra, atualmente escassa.
As mudanças também alcançaram ferramentas desenvolvidas pela família: o banco de caixotes com rodinhas e a escada de três pés, antes feitos de madeira, agora são de metal. Ercílio recebe visitantes na propriedade e explica o manejo das frutas; Takeo e Olga Hoçoya continuam trabalhando, o que permite ao filho participar de cursos e intercâmbios.
As filhas de Ercílio têm 6 e 8 anos e crescem no galpão, mas a decisão de assumir o negócio caberá a elas. O produtor afirma que “você tem que preparar o seu sucessor” e que a empresa precisa estar em condições de ser herdada; segundo ele, sua própria sucessão segue em andamento e quem assume deve poder mudar o que for necessário.


